A presença feminina nos cargos de chefia ou de comando no âmbito do mercado financeiro, apesar de estar longe do ideal, está crescendo. Alguns dos mais importantes órgãos internacionais ligados à área econômica ou de finanças hoje são ocupados por elas, o que até há pouco anos era raridade. Mas essa conquista não vem sem muita dedicação, preparação e o enfrentamento de situações como, por exemplo, uma arraigada visão andrógina de liderança que vem das próprias mulheres.

Apesar do número cada vez maior de mulheres em posição de direção no mundo, a participação no país ainda é bastante modesta, o que coloca instituições como o Sicoob União MT/MS em um lugar de destaque. Além do cargo máximo, que é a presidência, a cooperativa de crédito conta com a presença feminina também em diretorias como a administrativo financeira e a comercial. Em comum, as executivas demonstram sua força por meio do conhecimento, da dedicação e da capacidade de superar obstáculos.

A presidente Aifa Naomi Uehara de Paula conta que começou sua carreira no cooperativismo financeiro há mais de 20 anos, quando se uniu a um grupo de colegas do Judiciário para criar uma alternativa aos bancos. A ideia, salienta, era ajudar as pessoas a não ficarem reféns de instituições tradicionais e imposições que não levavam em conta as necessidades e os anseios dos correntistas. Desde então sempre ocupou cargos de direção até se tornar presidente, em 2012, iniciando um trabalho voltado à governança e à modernização da cooperativa.

Na sequência, veio um desafio ainda maior: assumir a presidência do Sicoob Central Rondon, que reúne cooperativas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Junto com a nova posição, que acumulou com a presidência do Sicoob União MT/MS, vieram inúmeras outras obrigações com a participação no Conselho do Sicoob Confederação, do Bancoob, do Instituto Sicoob Brasil e da Organização das Cooperativas Brasileiras. Detalhe: em âmbito nacional Aifa é a única mulher a representar uma central regional.

Os desafios foram e continuam sendo muito grandes, mas Aifa conta que sempre os enfrentou muito bem, buscando preparar-se solidamente. “Eu nunca me senti intimidada por nenhum desses desafios e nem pelo fato de ser um mundo masculino. Sempre me preparei muito, estudei muito o assunto, me capacitei bastante. Fiz muitos cursos de pós-graduação, formação em liderança, formação em gestão de pessoas para que pudesse transitar nesses conselhos com bastante segurança. E pudesse expressar realmente a opinião tanto como mulher e como gestora dessas organizações”, frisa.

Ela espera que seu exemplo sirva para encorajar outras pessoas. “Acredito muito no potencial da mulher. Acredito que ela tem que ocupar esses espaços. O mundo cooperativista é muito masculino, mas acredito que é mais porque as mulheres não se interessam. Acredito que elas devem ter mais curiosidade sobre o assunto e também se capacitar muito”, salienta.

“Tem muito espaço para as mulheres e cabe a nós ocuparmos esses espaços e tornar essas administrações mais heterogêneas e melhores. Com os olhares feminino e masculino com certeza tudo fica melhor”, garante.
Diretora Administrativa e Financeira do Sicoob União MT/MS, Mônica E. Faria de Carvalho Almeida é outro exemplo dessa busca. Formada em Administração de Empresas com MBA em gestão cooperativista, certificada em formação de executivos pela Dom Cabral, ela entrou no Sicoob em 2001 como estagiária. Com o tempo, conta ela, foi aumentando a vontade de aprender sobre o cooperativismo de crédito e contribuir para o crescimento do sistema com um toque mais feminino.

“Durante esses anos percebi que poucas mulheres ocupavam os cargos de CEO (Chief Executive Officer), que são responsáveis pela gestão máxima da empresa. Me preparei todos esses anos, passei por quase todas as áreas da cooperativa, e sempre com uma certeza de que as mulheres possuem alto poder de liderança, gestão de equipes e tomadas de decisões”, atesta.

Não foi uma trajetória simples, frisa Mônica, porque segundo ela ainda existe muito machismo nas esferas de poder e é preciso de grande resiliência e determinação para alcançar postos e se manter neles. “Durante anos percebi que as mulheres foram rotuladas como emocionais, frágeis e sem posicionamento. Hoje, atuar como diretora executiva de uma das maiores cooperativas do sistema Sicoob é um marco principalmente na minha história. Entro para quebrar o paradigma e mostrar que as mulheres podem exercer o cargo que elas quiserem desde que se preparem para isso”, reforça.

Outra diretora que completa 21 anos de Sicoob União MT/MS este ano é Rosane Gonçalves da Silva Herculino. Sua história é bem parecida com a da colega de diretoria. Começou como estagiária, formou-se em Administração, possui MBA em Gestão de Cooperativismo de Crédito, além de formação em coaching e executiva pela FGV. Aperfeiçoou-se enquanto passava pelos mais diferentes cargos, como assistente e analista de crédito, subgerente, gerente de agência e gerente de relacionamento e negócios. “Me tornei superintendente e então cheguei ao atual cargo em que eu estou hoje, como diretora comercial, com o desafio de trabalhar com dois estados, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, ressalta.

O desafio, lembra ela, é diário. “Não foi fácil e não é fácil você ocupar um cargo de gestão, de direção, porque nós mulheres temos que estar todo momento praticamente provando que somos capazes de tomar decisões. E decisões muitas vezes bastante assertivas”, confessa. Trata-se de uma conquista diária de espaço e de afirmação. “No início as pessoas ficavam surpresas porque nos julgam pela aparência. Acham que não temos conhecimento ou inteligência suficientes para tomar as decisões mais agressivas. Mas a partir do momento que você se empodera, não na questão do cargo, mas das responsabilidades que ele traz, as pessoas começam a te olhar diferente, a te respeitar. Mas não é fácil, porque o mundo é machista”, lamenta.

Para Rosane, a liderança feminina tem diferenciais que precisam ser entendidos. “Temos que demonstrar força, mas tem como ser forte demonstrando sentimento, essa sensibilidade que nós temos e isso acho que nos leva ao sucesso”, diz. E, pasmem, é preciso lutar inclusive pelo reconhecimento das próprias mulheres. “Hoje vejo que muitas vezes as mulheres empreendedoras precisam de mais apoio das próprias mulheres. Ao invés de juntar forças para o crescimento, não são todas que compram a ideia. Se as mulheres se voltassem para o empoderamento umas das outras estaríamos melhores, com certeza”, analisa.

Fonte: G1MT