O empresário Dalmi Defanti, proprietário da Gráfica Print, teria pago R$ 440 mil em espécie para representantes da campanha do então candidato ao Governo do Estado, Pedro Taques, nas eleições de 2014. O valor corresponde a uma suposta “doação” de Defanti, não informada à Justiça Eleitoral, que pretendia apoiar a candidatura.

A informação consta do depoimento de Dalmi Defanti à Polícia Federal nos autos de um inquérito que apura a suposta prática de “Caixa 2” - dinheiro utilizado por candidatos e que não é declarado à Justiça Eleitoral -, na campanha de Taques ao Governo do Estado, em 2014. As declarações foram prestadas em fevereiro de 2020, na superintendência da PF em Cuiabá, e também sugerem um esquema de lavagem de dinheiro.

Inicialmente, o inquérito onde constava o depoimento esteve sob segredo de Justiça. Porém, juiz Jorge Alexandre Martins Ferreira, da 51ª Zona Eleitoral de Cuiabá, determinou a remoção de sigilo do inquérito. Defanti disse à PF que foi procurado pelo também empresário Alan Malouf, um dos coordenadores financeiros de campanha de Taques em 2014, pedindo doações ao então candidato.

O encontro ocorreu num apartamento no bairro Santa Rosa, na Capital. Inicialmente, segundo o proprietário da Gráfica Print, não foram tratados valores e a doação ocorreria por meio de serviços gráficos da organização à campanha de 2014.
Na ocasião, Defanti informou ao candidato que as licitações do futuro Governo não deveriam ter influência política – e foi respondido pelo próprio Pedro Taques de que não haveria “vantagens” para qualquer pessoa, “sendo todos tratados de forma igualitária”. O empresário confessou em seu depoimento que após as palavras, acreditou que Taques realizaria um “governo sério e honesto”, sentindo-se atraído em “contribuir para esse novo momento para o Estado de Mato Grosso”.

Posteriormente, conforme revelou o empresário, Alan Malouf o procurou novamente pedindo uma doação de R$ 2 milhões, que seriam realizadas por meio do fornecimento de materiais gráficos à campanha de Pedro Taques. Ele venceu o pleito ainda no primeiro turno, em 2014.

Dalmi Defanti contou à PF que concordou com a doação, desde que ela fosse devidamente declarada, ao final da campanha, com o recebimento do termo de doação eleitoral, além da emissão de notas fiscais apenas com os custos do serviço (sem margem de lucro). Após o início do período eleitoral, com as demandas por materiais gráficos à Gráfica Print, Dalmi Defanti “estranhou” que uma das notas fiscais pelos serviços foi paga, contrariando o acordo inicial de que o total de R$ 2 milhões seria declarado como “doação”, ao final da campanha.

No mês de outubro, já após a vitória do então candidato, Defanti conta que foi informado pelos coordenadores de campanha que o acordo havia “mudado”, e que sua empresa constaria como “prestadora de serviço”. Após o pagamento das notas fiscais dos serviços prestados pela Gráfica Print, ele teria que devolver os valores à pessoas ligadas a Pedro Taques.

O empresário admitiu que se sentiu “coagido”, e que acabou aceitando os novos termos “por se tratar de ex-membro do Ministério Público, atual Senador e Governador já eleito”, lembrando da trajetória de Pedro Taques na política e no funcionalismo público. Assim, com o novo "acordo", a campanha do já eleito Pedro Taques depositou R$ 440 mil na conta bancária da Gráfica Print como parte dos “pagamentos” dos serviços prestados, em outubro de 2014.

O dinheiro foi devolvido em espécie a pessoas ligadas ao governador, das quais “não se recorda”, dentro de sua própria empresa. “Após a realização dos saques (no valor total de R$440 mil), entregava tais quantias em espécie para mensageiros enviados pela direção da campanha. Os valores eram entregues na sala do financeiro da empresa Gráfica Print; que o declarante não se recorda quem foram as pessoas responsáveis por buscar os referidos valores”, informou o empresário.

O empresário não informou se outros pagamentos foram realizados á Gráfica Print. O depoimento de Dalmi Defanti também apontou que o valor acordado inicialmente da “doação” ultrapassou os R$ 2 milhões, chegando a R$ 909 mil de montante excedente.

O suposto esquema de “Caixa 2” foi revelado por Alan Malouf, que disse que cerca de R$ 10 milhões “irrigaram” a campanha do ex-governador, e que não foram declarados à Justiça Eleitoral.

Fonte: folhamax